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Por SIMÃO PEDRO CHIOVETTI*

As instituições participaram do Golpe de 2016 e, senão aliadas do presidente, estão apenas administrando a crise política

A publicização do vídeo da reunião ministerial de 22 de abril causou um verdadeiro frenesi. A reunião de Bolsonaro com sua “equipe” de ministros e presidentes de estatais e auxiliares mais próximos ocorreu quando a crise do coronavírus já estava instalada pelo crescimento do número de pessoas infectadas e mortas e, embora já soubéssemos de alguns detalhes de falas do presidente e seus ministros, vazadas para a imprensa de depoimentos de Moro no inquérito aberto pelo STF, de fato algumas outras vieram como novidades, como a do ministro do Meio Ambiente sobre aproveitar a crise da pandemia para acabar com a legislação ambiental de uma vez e a revelação de que o projeto de Bolsonaro é armar a população para uma provável guerra civil.

O que se viu, de fato, foi algo grotesco, a nudez total de um governo que não está nem aí com os dramas da população, o palavratório indecoroso de gente que não tem noção da importância do cargo que ocupa, pessoas despreparadas e cujas propostas são unicamente destruir o mínimo de civilidade que o povo brasileiro conquistou e tentou amarrar na Constituição de 1988 em forma de direitos e regramentos. A fala do ministro Ricardo Salles propondo aproveitar que o País e a imprensa estão distraídos com as notícias das mortes pelo Coronavírus para acabar com a legislação que protege os recursos ambientais é escandalosa, para dizer o mínimo!

Ficaram claras as intenções de Bolsonaro e seu grupo, embasadas em sua visão miúda de mundo, que despreza os esforços da democracia pela solução dos conflitos através da arte da política e entende que a política é guerra permanente para asfixiar ou eliminar todos aqueles que se colocam contra os inimigos que são aqueles que criticam seus atos autoritários ou que se colocam no caminho contrários às suas intenções de transformar o País numa sociedade ditatorial que proteja os saqueadores das terras, das riquezas minerais e promova os interesses dos poucos membros do clube dos privilegiados, incluindo aí também a ralé dos seus amigos, milicianos e espertalhões, a procura de mamatas e privilégios e onde o lema verdadeiro é o velho “quem pode mais chora menos”. No limite, o interesse de Bolsonaro é puramente o do seu círculo familiar, igual agem as máfias pelo mundo. Se há um projeto de governo por trás da reunião é esse!

Enquanto isso, o povo está morrendo pelo vírus e pelo de desespero da fome e do desemprego, problemas cujo interesse desses fascistas que estão no governo de solucionar é zero.

Bolsonaro nunca desceu do palanque. É evidente que seu discurso, ao se colocar com um homem “honesto” e antissistema, que está enfrentando os privilegiados e corruptos e que por isso “não me deixam governar“, anima os radicais que lhe são fiéis e engana uma parte de cidadãos, indignados com a “corrupção” e principalmente os mais pobres, que sofrem com esse sistema que os excluem e os jogam à própria sorte em meio à violência, fome  e desemprego e que não conseguem sentir ou entender os benefícios de um sistema democrático e por isso as saídas autoritárias são vistas com simpatia. O conteúdo de suas falas na reunião e em outros momentos o reforçam como esse líder imbuído da missão, terrena ou mesmo celestial, de reformar tudo isso de errado que está aí. Mas Bolsonaro sempre foi aquilo, sempre fez a narrativa de ódio e violência para esses que o seguem cegamente, mas que, pelas últimas pesquisas de opinião, vêm diminuindo.

Sim! Ali crimes foram expostos, como o da decisão arbitrária de interferir na Polícia Federal para proteger a familícia contra o que chama de “sacanagem”, como a pregação de golpe contra o Supremo com defesas de prisão dos ministros da Corte Máxima e morte aos governadores e prefeitos, transformados em inimigos de ocasião.

As questões que se levantam disso tudo é: o que vai acontecer? Como as instituições irão reagir?

O vídeo pode sim virar uma peça importante para impulsionar e justificar o impeachment do presidente fascista, já solicitado pelos partidos de esquerda, entidades da sociedade civil, personalidades e juristas. As ameaças veladas, e depois cumpridas, de interferência pessoal na Polícia Federal, só não foram maiores porque o STF interferiu. Mas, convenhamos, o Supremo agiu pouco até agora, menos do que poderia ter feito.

Lembremos que por muito menos a Dilma foi golpeada, inclusive pelo próprio STF.

Mas, não tenhamos ilusão. As instituições participaram do Golpe de 2016 e, senão aliadas do presidente, estão apenas administrando a crise política. O ministro Celso de Mello deu sim um pequeno lampejo de coragem ao abrir o inquérito sobre a interferência na PF e oitivas dos ministros, inclusive os militares, talvez porque está indo embora no fim do ano e certamente será substituído por um fascista puro do Direito. Mas no caso da apreensão do telefone celular do presidente, ele só encaminhou o pedido para análise do Procurador Geral da República. Poderia não ter encaminhado, mas justificou que deu encaminhamento burocrático. Até agora não vimos o STF se manifestar e nem refutar a ameaça à

Democracia e ao próprio STF. O próprio Celso de Mello já sabia da interferência de Bolsonaro na Polícia Federal e a única coisa relevante que fez foi divulgar, editado, o vídeo com as informações que já haviam sido, muito delas, vazadas para a imprensa.

O STF vem reagindo a conta-gotas, como por exemplo, dar relativa autonomia aos governadores no combate à pandemia. Mas na questão estrutural que é impedir o avanço galopante do fascismo, o que fez até agora? Pelo jeito, não fará! Preferem jogar essa tarefa para a outra instituição, o Congresso. Aí, só se o Centrão se afogar na gula dos seus corruptos que já estão a alugar seu apoio em troca de cargos e benesses.

É evidente que as falas e posturas dos participantes da reunião que entrará para a história da política brasileira trará consequências para Bolsonaro e seus ministros e trará desgastes para sua imagem já desgastado, inclusive no grupo de apoiadores. O que não há é uma “bala de prata” para liquidar de vez o mandatário fascista. Isso terá que ser feito com paciência e firmeza pelo conjunto das oposições.

A situação do nosso País, já o segundo em morte pela Pandemia e se afundando também nas crises política, econômica e ambiental, é desesperadora. Exige que as lideranças dos partidos democratas, as lideranças das instituições representativas da sociedade civil, dos movimentos sociais, os intelectuais e artistas, os militantes e lideranças populares se unam agora para exigir o fim desse governo desastroso – esse deve ser o objetivo central – pois sua permanência é a certeza de uma ditadura neofacista que já colocou sua cabeça e parte do corpo para fora do ovo, como ficou escancarado na grotesca reunião ministerial.

*Simão Pedro Chiovetti,  mestre em sociologia política, foi deputado estadual (2003-2015) e secretário municipal de serviços na gestão Haddad.

(Publicado no site A Terra é Redonda, em 25/05/2020)

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