GESTÃO COVAS SÓ FALA EM “ENXUGAR GASTOS” E NÃO NA BOA PRESTAÇÃO DOS SERVIÇOS

Fiquei perplexo com a decisão da Câmara Municipal, no meio da Pandemia – quando só se deveria votar projetos emergenciais de proteção e apoio à população – de aprovar o Projeto de Lei do prefeito tucano Bruno Covas (PSDB) que extingue autarquias como a Hospitalar que cuida da gestão dos hospitais, a da Limpeza Pública, o Ilume que cuida da iluminação pública e a do Serviço Funerário Municipal cuja gestão será concedida à iniciativa privada entre outras.
Não sou contra extinguir alguns penduricalhos como as entidades que mais servem para comer dinheiro público com altos salários, mas elas são poucas. O que sou contra é extinguir a AMLUrb, o Ilume, o Serviço Funerário, a Autarquia Hospitalar e abrigá-las todas numa Agência Regulatória dos serviços concedidos com poucos funcionários. É tudo que as empresas particulares concessionárias querem: pouca estrutura para fiscalizar e acompanhar a prestação dos serviços.
Os serviços são complexos, as quantidades são enormes e os valores orçamentários pagos são gigantes. Por exemplo: a AMLUrb que faz a gestão e a fiscalização dos contratos de coleta e varrição e limpeza com mais de 15 mil funcionários contratados e 20 mil toneladas de resíduos diários a serem manejados corretamente. Nós já temos uma estrutura que precisaria ser reforçada e não diminuída. O caso do Serviço Funerário com os 22 cemitérios muncipais, as 15 agências e 1 crematório que é monopólio muncipal e vai ser fatiado em diversas empresas particulares: como vai ser fiscalizado? E a concessão da Iluminação Pública com o maior parque de iluminação do mundo e um orçamento anual de R$ 500 milhões, quem acompanhará? No projeto de concessão (a PPP) que idealizamos na gestão Haddad e agora está sendo implementado, transformaríamos o Ilume numa agência forte para acompanhar de perto a qualidade almejada para os serviços.
Tenho duas impressões desse Projeto que agora virou a Lei: ao constatar que a vaca tinha carrapato e para matar o carrapato decidiram eliminar a vaca. os serviços vão ficar à mercê das empresas privadas e a qualidade dos mesmos corre risco.
O foco está errado: o que a cidade quer é um bom serviço prestado, com qualidade e regularidade e com contratos justos. No projeto do governo tucano o foco está na economia de recursos com a gestão e arriscando deixar a qualidade em segundo plano.
Impressionante que a sociedade paulistana não foi escutada nesse assunto: pelo menos eu não soube de nenhuma iniciativa nesse sentido. Espero que o Prefeito Covas coloque a mão na consciência e reveja pontos importantes como o número de servidores na nova agência para acompanhar e fiscalizar, pois o que está proposto (cerca de 500) é temerário para o interesse público!

MANEJO E DESTINAÇÃO CORRETA DOS RESÍDUOS: UM LONGO CAMINHO A PERCORRER

A Lei Nacional de Resíduos Sólidos (12.305/2010), uma das mais modernas do Mundo, completa em 02 de agosto de 2020, 10 anos desde que foi sancionada pelo Presidente Lula e após 20 anos em tramitação no Congresso Nacional.
Normalmente, nestas datas comemorativas, a gente se pergunta: “Mas, e aí: a Lei pegou ou virou letra morta?” No caso da 12.305/10 ela pegou, mas encontra ainda muitas resistências e essas precisam ser enfrentadas. Como exemplo positivo, amanhã, a lutadora comunidade da Brasilândia, na Zona Noroeste da Capital vai fazendo a sua parte e iniciará mais uma cooperativa de reciclagem para gerar renda, trabalho para um grupo de trabalhadores e ajudar na preservação do seu meio ambiente.
A Lei colocou o Brasil ao lado dos principais países em termos de legislação moderna para o enfrentamento dos principais problemas ambientais, sociais e econômicos decorrentes do manejo inadequado dos resíduos sólidos.
Ela prevê instrumentos de prevenção e redução na geração dos resíduos sólidos tendo como proposta a prática de hábitos de consumo sustentáveis e instrumentos de reciclagem e compostagem. Ela estabelece metas ousadas de redução gradativa dos lixões e estabelece a Responsabilidade Compartilhada, princípio pelo qual o setor empresarial privado, o cidadão e os poderes públicos são co-responsáveis pelo manejo, deposição, coleta e limpeza em relação aos resíduos produzidos.
Na Responsabilidade Compartilhada, 1) o setor privado tem a obrigação de realizar a Logística Reversa, ou seja, recolher e levar para a reciclagem os resíduos que produz, como embalagens e materiais inservíveis ou apoiar o setor público na realização da coleta seletiva e reciclagem; 2) o setor público, principalmente as prefeituras, são responsáveis pela regulação de serviços, limpeza, coleta e destinação final dos resíduos produzidos na cidade e 3) os cidadãos e pequenas empresas têm a responsabilidade de práticas sustentáveis de separar seus resíduos, reter, fazer compostagem, descartar corretamente e nos horários estipulados etc. Porque não adotarmos a boa prática de separar os resíduos em casa ou na empresa e destinar para a reciclagem ou fazer a compostagem dos resíduos unidos com as composteiras domésticas?
Evidentemente que entre a Lei sancionada e o seu cumprimento efetivo por todos é um longo caminho a ser andado. Muitos cidadãos descartam seus resíduos fora do estabelecido e não têm atitude de gentileza para com seus visinhos e comunidade. Muitas prefeituras não têm um plano de destinação final correto e não apoiam as cooperativas de catadores e a maioria dos empresários brasileiros, principalmente os grandes, não querem e não fazem a logística reversa de seus produtos. Por exemplo, o setor de embalagens (70% dos resíduos secos, como garrafas pet, caixas de papelão etc) fazem o mínimo e se recusam a fazer a coleta seletiva, jogando isso nas costas dos orçamentos das prefeituras e indiretamente dos cidadão que pagam os impostos.
Quando fui secretário de serviços na gestão Haddad (2013-16) na Capital paulista que produz 20 mil toneladas de resíduos sólidos por dia, procuramos avançar na aplicação da Lei 12.305: decretamos o Plano de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos com compromissos e metas discutidos com a população, implantamos centrais mecanizadas de reciclagem, páteos de compostagem para resíduos das feiras livres, incentivos à compostagem doméstica, levamos a coleta seletiva para todos os distritos, duplicamos o número de ecopontos para 101 unidades, ações de educação ambiental, um novo e moderno aterro ambiental e duas unidades de tratamento de resíduos de saúde, autorizamos novos modelos de sacolas de bioplástico no lugar das sacolas de plástico de petróleo e as transformamos em instrumentos de educação ambiental entre outras iniciativas.
Para a Lei ganhar força, precisamos da consciência de todos para efetivarmos os instrumentos dos termos de compromisso entre as prefeituras e empresas, de acordos setoriais entre setores empresariais e governo federal, utilizando toda a experiência daqueles que nos ensinaram o valor da reciclagem que são os catadores e suas organizações e cooperativas para serem contratadas e bem remuneradas pelos serviços ambientais que prestam à sociedade. Precisamos que as empresas que têm seus negócios baseados na coleta e deposição dos resíduos invistam em novas tecnologias que não só os aterros e sim na reciclagem e compostagem. Precisamos que as prefeituras e governos estaduais invistam em planos de gestão integrados e em educação ambiental e apoiem o trabalho dos catadores. Precisamos da consciência e compromisso de todos para que nosso Meio Ambiente principalmente o urbano, possa ser mais saudável gerando mais qualidade de vida aos seus cidadãos e que nosso futuro seja menos sombrio e triste!
Viva a Lei Nacional de Resíduos Sólidos!
(Publicado também no site Diário do Centro do Mundo em 01/08/2020)

Centrais mecanizadas e outras inovações fizeram reciclagem avançar sob Haddad

Meu #tbt de hoje é pra lembrar das Centrais Mecanizadas de Triagem (CMT) que inauguramos em 2014 na gestão Haddad em São Paulo – numa delas, que denominamos Carolina Maria de Jesus para homenagear a catadora negra que virou escritora com seu clássico Quarto de Despejo, tivemos a grata presença do ex-presidente Lula. Estão situadas em Santo Amaro e na Ponte Pequena. Importamos os maquinários da Alemanha e da França e com elas e com a ampliação da Coleta Seletiva na cidade, triplicamos a capacidade de reciclagem de resíduos secos que até então era apenas 1,6% (realizadas por 20 cooperativas conveniadas em seus galpões) de tudo que a cidade coletava oficialmente e passamos para 4,8%. Ampliamos os convênios com mais 12 cooperativas reformando ou construindo novos galpões e contratamos as cooperativas para fazerem complementarmente a Coleta Seletiva. E construímos mais 51 ecopontos além dos 50 que já existiam. Governos do PT são assim, fazendo muito pelo povo!
Mas, o que mais me orgulha nisso tudo foi ter constituído o Fundo Paulistano de Reciclagem para os Catadores, com os recursos advindos da comercialização dos materiais triados nas CMTs e que hoje está remunerando de forma emergencial cerca de 2.000 catadores das cooperativas e avulsos durante a pandemia pois as atividades das cooperativas avulsas estão suspensas por conta do isolamento social.
Outros projetos de sucesso que implantamos na Cidade na área de reciclagem foram os 4 páteos de compostagem de resíduos das feiras livres e o programa de incentivo à compostagem doméstica com a distribuição de composteiras e oficinas de orientação de uso. Esses equipamentos permitem reter os resíduos orgânicos ao invés de transportá-los – milhares de toneladas – para os aterros e transformá-los em adubo de primeira qualidade.
A atual gestão tucana manteve as centrais mecanizadas, planeja fazer mais pateos de compostagem, mas cortou convênios com dezenas de cooperativas, não deu continuidade aos contratos das cooperativas para a coleta seletiva, não fez a 3ª central mecanizada prevista, não fez nenhum novo ecoponto e diminuiu a reciclagem em 15%.
#PT13
(Publicado no meu facebook em 29/07/2020)
As pretenções golpistas de Bolsonaro e equipe

As pretenções golpistas de Bolsonaro e equipe

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Por SIMÃO PEDRO CHIOVETTI*

As instituições participaram do Golpe de 2016 e, senão aliadas do presidente, estão apenas administrando a crise política

A publicização do vídeo da reunião ministerial de 22 de abril causou um verdadeiro frenesi. A reunião de Bolsonaro com sua “equipe” de ministros e presidentes de estatais e auxiliares mais próximos ocorreu quando a crise do coronavírus já estava instalada pelo crescimento do número de pessoas infectadas e mortas e, embora já soubéssemos de alguns detalhes de falas do presidente e seus ministros, vazadas para a imprensa de depoimentos de Moro no inquérito aberto pelo STF, de fato algumas outras vieram como novidades, como a do ministro do Meio Ambiente sobre aproveitar a crise da pandemia para acabar com a legislação ambiental de uma vez e a revelação de que o projeto de Bolsonaro é armar a população para uma provável guerra civil.

O que se viu, de fato, foi algo grotesco, a nudez total de um governo que não está nem aí com os dramas da população, o palavratório indecoroso de gente que não tem noção da importância do cargo que ocupa, pessoas despreparadas e cujas propostas são unicamente destruir o mínimo de civilidade que o povo brasileiro conquistou e tentou amarrar na Constituição de 1988 em forma de direitos e regramentos. A fala do ministro Ricardo Salles propondo aproveitar que o País e a imprensa estão distraídos com as notícias das mortes pelo Coronavírus para acabar com a legislação que protege os recursos ambientais é escandalosa, para dizer o mínimo!

Ficaram claras as intenções de Bolsonaro e seu grupo, embasadas em sua visão miúda de mundo, que despreza os esforços da democracia pela solução dos conflitos através da arte da política e entende que a política é guerra permanente para asfixiar ou eliminar todos aqueles que se colocam contra os inimigos que são aqueles que criticam seus atos autoritários ou que se colocam no caminho contrários às suas intenções de transformar o País numa sociedade ditatorial que proteja os saqueadores das terras, das riquezas minerais e promova os interesses dos poucos membros do clube dos privilegiados, incluindo aí também a ralé dos seus amigos, milicianos e espertalhões, a procura de mamatas e privilégios e onde o lema verdadeiro é o velho “quem pode mais chora menos”. No limite, o interesse de Bolsonaro é puramente o do seu círculo familiar, igual agem as máfias pelo mundo. Se há um projeto de governo por trás da reunião é esse!

Enquanto isso, o povo está morrendo pelo vírus e pelo de desespero da fome e do desemprego, problemas cujo interesse desses fascistas que estão no governo de solucionar é zero.

Bolsonaro nunca desceu do palanque. É evidente que seu discurso, ao se colocar com um homem “honesto” e antissistema, que está enfrentando os privilegiados e corruptos e que por isso “não me deixam governar“, anima os radicais que lhe são fiéis e engana uma parte de cidadãos, indignados com a “corrupção” e principalmente os mais pobres, que sofrem com esse sistema que os excluem e os jogam à própria sorte em meio à violência, fome  e desemprego e que não conseguem sentir ou entender os benefícios de um sistema democrático e por isso as saídas autoritárias são vistas com simpatia. O conteúdo de suas falas na reunião e em outros momentos o reforçam como esse líder imbuído da missão, terrena ou mesmo celestial, de reformar tudo isso de errado que está aí. Mas Bolsonaro sempre foi aquilo, sempre fez a narrativa de ódio e violência para esses que o seguem cegamente, mas que, pelas últimas pesquisas de opinião, vêm diminuindo.

Sim! Ali crimes foram expostos, como o da decisão arbitrária de interferir na Polícia Federal para proteger a familícia contra o que chama de “sacanagem”, como a pregação de golpe contra o Supremo com defesas de prisão dos ministros da Corte Máxima e morte aos governadores e prefeitos, transformados em inimigos de ocasião.

As questões que se levantam disso tudo é: o que vai acontecer? Como as instituições irão reagir?

O vídeo pode sim virar uma peça importante para impulsionar e justificar o impeachment do presidente fascista, já solicitado pelos partidos de esquerda, entidades da sociedade civil, personalidades e juristas. As ameaças veladas, e depois cumpridas, de interferência pessoal na Polícia Federal, só não foram maiores porque o STF interferiu. Mas, convenhamos, o Supremo agiu pouco até agora, menos do que poderia ter feito.

Lembremos que por muito menos a Dilma foi golpeada, inclusive pelo próprio STF.

Mas, não tenhamos ilusão. As instituições participaram do Golpe de 2016 e, senão aliadas do presidente, estão apenas administrando a crise política. O ministro Celso de Mello deu sim um pequeno lampejo de coragem ao abrir o inquérito sobre a interferência na PF e oitivas dos ministros, inclusive os militares, talvez porque está indo embora no fim do ano e certamente será substituído por um fascista puro do Direito. Mas no caso da apreensão do telefone celular do presidente, ele só encaminhou o pedido para análise do Procurador Geral da República. Poderia não ter encaminhado, mas justificou que deu encaminhamento burocrático. Até agora não vimos o STF se manifestar e nem refutar a ameaça à

Democracia e ao próprio STF. O próprio Celso de Mello já sabia da interferência de Bolsonaro na Polícia Federal e a única coisa relevante que fez foi divulgar, editado, o vídeo com as informações que já haviam sido, muito delas, vazadas para a imprensa.

O STF vem reagindo a conta-gotas, como por exemplo, dar relativa autonomia aos governadores no combate à pandemia. Mas na questão estrutural que é impedir o avanço galopante do fascismo, o que fez até agora? Pelo jeito, não fará! Preferem jogar essa tarefa para a outra instituição, o Congresso. Aí, só se o Centrão se afogar na gula dos seus corruptos que já estão a alugar seu apoio em troca de cargos e benesses.

É evidente que as falas e posturas dos participantes da reunião que entrará para a história da política brasileira trará consequências para Bolsonaro e seus ministros e trará desgastes para sua imagem já desgastado, inclusive no grupo de apoiadores. O que não há é uma “bala de prata” para liquidar de vez o mandatário fascista. Isso terá que ser feito com paciência e firmeza pelo conjunto das oposições.

A situação do nosso País, já o segundo em morte pela Pandemia e se afundando também nas crises política, econômica e ambiental, é desesperadora. Exige que as lideranças dos partidos democratas, as lideranças das instituições representativas da sociedade civil, dos movimentos sociais, os intelectuais e artistas, os militantes e lideranças populares se unam agora para exigir o fim desse governo desastroso – esse deve ser o objetivo central – pois sua permanência é a certeza de uma ditadura neofacista que já colocou sua cabeça e parte do corpo para fora do ovo, como ficou escancarado na grotesca reunião ministerial.

*Simão Pedro Chiovetti,  mestre em sociologia política, foi deputado estadual (2003-2015) e secretário municipal de serviços na gestão Haddad.

(Publicado no site A Terra é Redonda, em 25/05/2020)

A Justiça como vingança. Moro candidato a presidente?

A Justiça como vingança. Moro candidato a presidente?

Imagem_Elyeser Szturm

Por Simão Pedro Chiovetti*

Para Moro o importante era fazer “justiça” como uma vingança do tipo social, em que o respeito às regras e formalidades legais eram o de menos

Moro foi um juiz provinciano, tacanho e cruel com os inimigos.  É a cara cínica da nossa elite conservadora e fascista. Desponta como candidato favorito da direita a bater Bolsonaro, porém para chegar ao seu objetivo, o caminho será árduo e cheio de armadilhas, idêntico ao que ele próprio criou para tirar os seus inimigos do caminho.

Como me escreveu o amigo Marcos Antonio Rocha Júnior, “Moro se constituiu como persona público sendo um juiz justiceiro”. Para ele, a defesa do Estado Democrático de Direito, o respeito ao devido processo e às garantias individuais nunca foram prioridades. O importante era fazer “justiça” como uma vingança do tipo social, em que o respeito às regras e formalidades legais eram o de menos. Sempre foi amparado por uma máquina politico, financeira e midiática para que seu arbítrio tivesse um verniz jurídico, ganhando assim o clamor público pelo “fim da impunidade e da corrupção.”

Assim, se o que importa combater é a impunidade, então o importante é a punição, a vingança social. Ou seja, o resultado importa mais que o processo. Direitos Humanos e garantias individuais tornaram-se secundário. Isso ficou mais do que demonstrado pelo site The Intercept,  com o vazamento dos diálogos entre os procuradores  e Moro, no escândalo que ficou conhecido como Vaza Jato e colocou a nu os métodos e intenções do então juiz.

Ao perseguir as lideranças do PT e ao minar o governo Dilma na sua sustentação política, com ações espetaculosas como a condução coercitiva ilegal contra Lula para desmoralizar o ex-presidente, outros políticos e empresários, Moro cresceu na aprovação da opinião pública fabricada e acreditou ter se tornado um deus ou no mínimo, um “mito” como ainda lhe apelidam.

A cruzada moralista a que se prestou, levou Moro a ser o principal ator da oposição aos governos populares. Seu papel foi base para que as elites econômicas e políticas defenestrassem o PT do governo e viabilizassem a implantação da agenda ultraneoliberal, que tem retirado os direitos da classe trabalhadora conquistadas ao longo das ultimas décadas, enfraquecida a soberania nacional e dilapidado dos recursos naturais e empresas estatais.

Vale lembrar ainda a forte ligação de Moro com o DEA, Departamento de Estado dos EUA, órgão que desenvolve as ações secretas do império norte-americano no mundo. Moro tornou-se figurinha carimbada nos cursos e eventos promovidos nos EUA e suas ações como juiz na Lava Jato causou direta e indiretamente a derrocada da indústria brasileira na cadeia da construção civil e petrolífera gerando desemprego enorme no setor e o enfraquecimento da gigante Petrobras, que passou a ter grande protagonismo internacional sob os governos Lula e Dilma. Nunca me esqueço de que quando estourou o escândalo da Vaza Jato pelo The Intercept, Moro vazou para os EUA sem mesmo ter uma agenda definida por lá, certamente buscando se aconselhar ou pedir socorro para seus verdadeiros chefes.

Karl Marx, na A Ideologia Alemã, cunhou a seguinte afirmação: “as ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes”. E assim ocorreu aqui. As classe dominante, a que detêm o poder econômico, fez a maioria de a sociedade brasileira acreditar que o causador dos nossos maiores problemas  era a corrupção do Estado e que foi o PT o “partido que mais roubou” ou que “liderou a maior corrupção da história” e o juiz justiceiro teve papel determinante na construção dessa narrativa.

Seu principal troféu foi a prisão de Lula, em processo forjado e suspeito, sem qualquer base fática razoável, tudo para tirá-lo do jogo eleitoral de 2018.  O mesmo conjunto de forças construiu a falsa aparência de que as regras do jogo democrático foram mantidas e que as instituições estavam em pleno funcionamento para “legitimar” a eleição do seu candidato escolhido que foi Geraldo Alckmin.

Como parte do plano deu errado, ou seja, o candidato escolhido pela Direita, do PSDB, não decolou, apelou-se para o pitbull que vivia preso na jaula para que seus rosnados e latidos ameaçadores estivessem sob controle, mas que, desde o golpe de 2016, tinha sido solto para agregar setores da extrema-direita ao plano. Bolsonaro não topou mais voltar para a jaula e, principalmente depois do episódio da facada e com Lula fora do páreo, ofereceu-se para derrotar o PT. No desespero e apelando para o vale-tudo da produção de fake news e sua disseminação pela rede de Whatsapp, as elites aceitaram a proposta. Depois, “se não der certo, tira, como tiramos a Dilma” era outra ideia das classes dominantes assimilada pelos que foram contaminados pela onde de ódio e ressentimentos contra o PT e Lula. O plano foi custoso, mas deu certo!

Mas, era preciso colocar uma coleira em Bolsonaro, para controlar seu ímpeto autoritário e as relações de seus filhos com as milícias no Rio de Janeiro. Paulo Guedes, o “posto Ipiranga” que responderia pela condução da economia, foi encarregado de sondar e convidar Sérgio Moro para ser um “superministro” e na Justiça garantir a legalidade das ações do futuro governo e unir o bolsonarismo das ideias autoritárias e conservadoras, com o lavajatismo e seu ideário moralista de fachada. Uma baita de uma ideia que, de quebra, garantiria um quê de legalidade às ações do governo e aquilataria um grande apoio popular para ele.

Para compensar o desgaste e escândalo de proporções internacionais que geraria a ida de Moro para o governo, afinal, como juiz, suas ações influenciaram diretamente o resultado eleitoral, ele foi vendido como uma espécie de moderador de Bolsonaro. Eu nunca considerei ser essa a situação. A meu ver, ele seria o viabilizador da formalidade do arbítrio num governo autoritário. Até deu sinais disso, inclusive no projeto de “combate ao crime” que enviou, mas que foi desidratado no Congresso Nacional. Para Lula, na verdade, “o presidente Bolsonaro é criação do Moro”, pois foram as suas ações como juiz que permitiram a ascensão e vitória do tacanho e radical extremista de direita em 2018. Para a esposa de Moro, ele e Bolsonaro “são uma coisa só”.

Moro, em 2019, conseguiu sobreviver às revelações do The Intercept, mas enrolou-se nas teias de golpes e artimanhas que construiu com a Rede Globo, com os tucanos e com a turma do Temer e um grupo de procuradores, a ponto de o Sistema não conseguir manter Lula na prisão, pois as revelações tornadas públicas pelo site davam conta da ação do juiz justiceiro que na prática comandava a ação dos promotores, o que é ilegal, influindo na produção de provas de um lado e na malandragem de ignorar outras, de apressar os prazos do processo, no vazamento seletivo de áudios e informações para a grande imprensa. Ou seja, jogou às favas os princípios de imparcialidade e isenção de um magistrado, crimes que em país mais sério teriam levado ao afastamento da função e tornado o juiz suspeito, anulando suas decisões.

Como ministro, Moro foi um fracasso, sofrendo derrotas no Congresso e mesmo dentro do Governo. Tentou legalizar a proposta de prisão após condenação em 2ª instância – tese derrubada no STF e que permitiu a liberação de Lula – e a que permitiria às forças policiais a licença para matar através da excrecência chamada excludente de ilicitude, ambas através de um pacote de medidas legislativas que acabaram sendo desidratadas pelo Parlamento e teve que engolir a criação da figura dos juízes de garantia que, se existissem durante os processos da Lava Jato, teria tirado dele a possibilidade de julgar os acusados já que ele foi o instrutor dos processos. Esperava que Bolsonaro vetasse essa proposta incluída na Lei pelos parlamentares, mas o presidente não o fez. Perdeu também o controle do COAF, órgão que controla a movimentação financeira dos brasileiros e empresas.

Assim, a condição inicial de “superministro” foi sendo esvaziada e ele perdendo gradualmente força interna, apesar de manter os altos índices de aprovação na opinião pública, protegido que sempre foi pela grande mídia, em especial a Rede Globo, que mantém com o mesmo uma parceria estratégica. Perante a sociedade e setores da opinião pública, sua figura foi diminuída ao fazer vistas grossas e mesmo proteger, de forma contraditória com seus discursos e ações anteriores, aos crimes e acusações contra figuras do governo ou membros do clã Bolsonaro. Começou passando panos no crime confesso de uso de caixa 2 em campanha do ministro Ônix Lorenzoni, ignorou os desvios de recursos do Fundo Eleitoral pelo ministro do turismo e presidente do PSC, partido usado nas eleições pela familícia e seus políticos aliados, crimes que ficaram popularizados como “laranjal do PSL”, fez pouco caso  nas investigações dos assassinatos bárbaros da vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson no RJ por bandidos milicianos íntimos do clã.

Bolsonaro engoliu Moro no seu governo, mas nunca admitiu que o ministro tivesse mais aprovação e popularidade que ele e passou a tratar o ministro como mero subalterno e exigir-lhe o controle da Polícia Federal para controlar e influenciar investigações sobre os crimes praticados por seus filhos e parlamentares da base do governo. Isso, somado à discordância com o comportamento do presidente em relação à crise do Coronavírus e o desconforto com a demissão sumária do colega ministro da Saúde, selou o racha da aliança do lavajatismo com o bolsonarismo na demissão de Moro.

Moro como mau político que sempre foi, aproveitou a oportunidade para sair atirando em Bolsonaro, acusando-o de pretender controlar as ações e investigações da PF e acabar com sua independência. Com isso, buscou se desvincular do presidente e recuperar a fama de paladino do combate à corrupção e da honestidade. Saiu se posicionando como candidato à presidente e usando a imagem positiva bem definida nas pesquisas para tentar ser a alternativa da direita em 2022.

Ele sabe que Coronavírus está descontrolado pela visão genocida do presidente em ignorar a gravidade da doença e ainda incentivar a população sair às ruas e ignorar o isolamento social. Ele certamente também já percebeu que a economia afundou ainda mais e dificilmente se recupera, com Paulo Guedes sendo o grande culpado dessa situação com suas políticas fracassadas em gerar crescimento e empregos, mas permanecendo como o único fiador junto com os militares do governo fascista.

Mas, na pressa, cometeu erros, como o de confessar um crime cometido quando, ao aceitar o convite para o ministério, negociou o pagamento ilegal de uma pensão vitalícia para sua família, “caso viesse a faltar”, o que é tipificado como crime de corrupção passiva pelo Artigo 317 do Código Penal. E também foi “delatado” pelo presidente que o tachou de mentiroso e o acusou de propor a troca do superintendente da PF com sua nomeação para uma vaga no STF. Isso reforçou a ação da defesa do de Lula junto à Corte de Direitos Humanos das Nações Unidas pela anulação das sentenças absurdas do sistema judiciário brasileiro contra o ex-presidente e a ação pela suspeição de Moro junto ao Supremo Tribunal Federal, ambas ainda sem decisão.

Agora sem os cargos de juiz e ministro, se Moro perder a superproteção que amealhou na Lava Jato com certeza vai entregar muita gente. Porém, ele sabe que é um arquivo vivo. Entregaria mais coisas do presidente, da família e de outros personagens, podendo se incriminar em definitivo? Resta a sua candidatura à presidência que depende do respaldo da Globo, dos norte-americanos, da Lava Jato e dos tucanos. Mas os inimigos deles sempre foram o PT e principalmente Lula e por isso Moro virou o que virou. Vão querer ajustar o canhão de vez contra o Bolsonaro que, até pelas pesquisas atuais, mesmo após a demissão dos ministros, ainda se mantém como força política relevante? Ou vão continuar, tendo Guedes e os militares como fiadores, mantendo o esquema atual e rifar o Torquemada de Curitiba? Guedes é o principal ator econômico no governo do esquema que deu relevância a Moro. Se cair pode ser que algo mude de maneira mais radical, mas pode ser também que o Mercado decida apenas mudar o titular para manter a mesma política econômica de destruição de direitos e do patrimônio público.

À parte desse jogo político interno entre criador e criatura, a pandemia traz uma nova realidade para o país. O atual governo aposta no caos social para capitalizar, por exemplo, a Renda Básica Emergencial e manter coesão política do fascismo e seu eleitorado. O povão, mediado pelos “intelectuais orgânicos” do bolsonarismo – pastores neopentecostais, líderes do agronegócio, empresários inescrupulosos entre outros – credita a Bolsonaro essa renda, pois têm precedente com a liberação do FGTS e do PIS/Pasep.  Sua base política controla a narrativa política com a tática de definir um inimigo por ocasião, entre eles está Moro.

Porém, a pandemia está corroendo socialmente e economicamente o País. O efeito da pedra jogada no lago dos panelaços da classe média pode alcançar o resto da sociedade? Não se sabe, já que ela se amalgou no antipetismo e no fascismo. A aposta de Bolsonaro no caos, negando a ciência e a realidade cruel do vírus, é uma aposta de altíssimo risco, porque subestima a ação do Covid-19, como ocorreu inicialmente na Itália, na Espanha e nos EUA, com resultados desastrosos e que agora se avizinha no Brasil.

Nesse cenário Moro tem uma vantagem já que um dos seus principais aliados, a rede Globo, tem mantido uma cobertura crítica em relação à incompetência do governo federal em lidar com a pandemia e principalmente sobre o papel nefasto de Bolsonaro que visa incentivar ainda mais os contágios e as mortes. A ideia é provocar além do desgaste de imagem um movimento que leve à saída do atual mandatário. Porém, fora das instituições que propiciaram poder e glória e com a nova realidade colocada pela pandemia, os setores majoritários podem eleger um novo ator político, mais afeito ao seu ninho, como o atual governador de SP João Dória, que tem se destacado no combate ao Coronavírus e confrontado Bolsonaro em suas ações genocidas, coisas que Moro nunca fez até o momento da sua saída.

*Simão Pedro foi deputado estadual (2003-2015) e secretário municipal de serviços na gestão Haddad.

(Publicado no site A Terra é Redonda, 30/04/2020)

Uma pesquisa meia boca

Uma pesquisa meia boca

Grande parte da imprensa procura calar e tornar invisível a oposição de esquerda. Impede-se assim a sociedade brasileira de ter acesso a outras posições políticas a não ser as duas dominantes

Por Simão Pedro*

Num primeiro momento, fiquei, como muitos, intrigado com a pesquisa meia boca do DataFolha – com entrevistas feitas por telefone, nos dias 1º a 3 de abril – publicada em diversos órgãos da imprensa. Não só em relação ao resultado dela que poderia sugerir um banho de água fria naqueles setores que trabalham na oposição ao governo neofacista de Bolsonaro, mas também em relação ao seu método contrário aos próprios métodos de pesquisa tradicionais que utiliza.

O que teria levado o DataFolha a realizá-la? O resultado principal reforça todo o negacionismo do genocida que ocupa a presidência justamente nos dias de atos contra as medidas de contenção aos vírus, e colaborando para jogar lenha contra o isolamento definido por governadores e prefeito. Quem bancou a pesquisa foi o banqueiro dono do jornal, Luis Frias, dono de uma instituição financeira de pagamento online, que dá mais lucro que o jornal?

Na pesquisa, o ministro Paulo Guedes, representante do deus Mercado, também se sai muito bem. Não será surpresa, se o Doido, com o respaldo da pesquisa que mostra que 59% da população não quer seu afastamento, contra 37% que assim deseja, der uma “canetada” como prometeu, para abrir comércio e serviços e liberar a volta às aulas imediatamente.

Mas a pesquisa, com toda a sua precariedade, acaba mostrando as contradições no bloco de poder que sustenta e disputa as decisões e os rumos do governo. Apesar de mostrar certo derretimento da aprovação de Bolsonaro, a pesquisa acaba fortalecendo os que continuam defendendo a sua permanência porque é ele que tem popularidade para manter em funcionamento esse esquema extremista que vigora sob s tutela dos militares.

O desenho do governo militarizado já vem antes do vírus. Vem com o vice, Mourão. Ele e colegas são generais chegados a questões fisiológicas, com disputa de cargos e de ministérios dentro do governo e de tendência de extrema-direita e entreguista. Esse Heleno é um típico militar linha dura extremista. Tanto que Paulo Guedes age criminosamente contra os direitos e os trabalhadores, vai vendendo estatais, torrando as reservas, governando para os banqueiros em primeiro lugar e nenhum deles faz a mínima objeção. Eles precisam do Bozo.

Pra mim é estratégia militar e de Steve Bannon as ações cotidianas que o fascista faz para manter o seu núcleo duro de apoio, formado pelos evangélicos fundamentalistas, hoje predominante entre os pobres, e extremistas brancos, de classe média e os ricos, como vistos nas carreatas e atos, que visam manter essa base neofascista no apoio ao governo. Atacar os “inimigos” do “mito”, como o Congresso, o STF e a China, falar mal da Oposição que cumpre seu papel de fiscalizar e denunciar os erros e más intenções do governo e que chamam de “comunistas” e atacar a imprensa e os jornalistas cotidianamente são itens que compõe o caldo autoritário almejado pelo presidente e para alimentar sua base de 20 a 30% do eleitorado. Essa base fascista existe e está estruturada com recursos, estratégia de redes sociais e de comunicação, com auxilio de logística de inteligência militar e tem se consolidado fortemente, como apontamos ao longo de 2019.

Mas também é importante entender o papel que joga boa parte da imprensa, calando e invisibilizando a oposição de esquerda, além de elencar outros presidenciáveis de plantão, como agora faz com Mandetta, contribuindo muito para manutenção desse núcleo duro do neofascismo. Tudo para ir garantindo Paulo Guedes, player dos banqueiros, que têm sócios ou credores em muitas redações. A sociedade brasileira, pela grande imprensa, está sem o direito de ter acesso a outras posições políticas a não ser as duas dominantes. Assim, a pesquisa da Folha desnuda essa contradição presente no seio do bloco de poder que sustenta o governo neofacista, uma reforçando a outra.

Nesse cenário, a esquerda terá um longo e penoso caminho. Vejam a nova tentativa de extinguir o PT em ação dos procuradores partidarizados da famigerada Lava Jato. Com certeza a mando de Moro e como resposta imediata à Carta dos líderes da Oposição pedindo a renuncia do facista, protocolada nessa mesma semana.

Os líderes dos partidos de oposição, dos movimentos sociais e das entidades democráticas precisam fortalecer e intensificar sua estratégica de comunicação, essencialmente através das redes sociais, manter a serenidade e a firmeza na denúncia das insuficiências das ações do governo federal para enfrentar a crise do coronavírus, das malandragens de Guedes e Maia para manter a agenda de reformas ultraneoliberais, propor o caminho de fortalecimento do papel do Estado na gestão da economia e apresentando e batalhando para aprovar políticas públicas que protejam o emprego e a renda da população trabalhadora e mais pobre, para que esta não pague a conta sozinha, além de estimulando as melhores práticas de solidariedade na nossa sociedade.

Conforme a pandemia evoluir, o quadro pode estourar a bolha neofascista e ajudar num plano de enfraquecimento e afastamento do presidente, mas também pode aprofundar o caos social e sanitário, criando justificativa para se adiar as eleições municipais de 2020 e implantar um regime mais endurecido, sonho de Bolsonaro e de sua facção. Em qualquer dessas situações, as Esquerdas precisam estar unidas, firmes e serenas para impor a derrota política ao bolsonarismo e ganhar pontos para voltar ao governo ou para continuar seu importante e fundamental papel de resistência ativa em defesa do Estado Democrático de Direito, da Democracia e da Justiça Social.

*Simão Pedro Chiovetti,  é mestre em sociologia política, foi deputado estadual (2003-2015) e secretário municipal de serviços na gestão Haddad.

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