Por SIMÃO PEDRO*

O papel do Movimento “Lula Livre” na luta pela suspeição de Sergio Moro

O Movimento “Lula Livre”, do qual participei junto com milhões de outras pessoas, foi um dos movimentos sociais mais impressionantes da história mais recente da classe trabalhadora. Impulsionado pela certeza de que Lula era inocente e vítima de uma terrível armação político-jurídica para criminalizar as esquerdas e impedir o PT de uma nova vitória eleitoral, o movimento e o próprio Lula acabaram vitoriosos ao final. A confirmação pelo Plenário do STF de que o juiz Sérgio Moro agiu politicamente para perseguir Lula e, portanto, foi considerado suspeito, jogando no lixo todas as suas ações é um acontecimento fantástico!

Durante 5 anos, frente à intenção e, depois, frente à operação levada a cabo por procuradores e juízes federais da ignominiosa, infame e malfadada operação Lava Jato de prender Lula e tirá-lo das eleições de 2018, o movimento Lula Livre foi uma das coisas mais impressionantes que eu li, vi e participei. Não só os petistas, mas os militantes e dirigentes de partidos de esquerda e dos mais diversos movimentos sociais, com especial destaque para o MST e sindicatos ligados à CUT, do Brasil e do mundo, artistas, sindicalistas, intelectuais, jornalistas, parlamentares, advogados e juristas e gente simples de todas as categorias do mundo do trabalho, se irmanaram na denúncia e na luta para mostrar que Lula era inocente, tinha sido condenado sem provas e conquistar a sua liberdade e, corolário disso, revelar que a dita operação foi uma das maiores e mais grotescas farsas jurídicas de que se tem notícia.

Animados pela determinação e serenidade de Lula que, desde o momento em que se entregou à Justiça cercado pela multidão no Sindicato dos Metalúrgicos e mesmo de dentro da prisão e diante do ceticismo de muitos, demonstrava firmeza ao afirmar que não trocava sua “dignidade pela sua liberdade” quando os algozes ofereceram aos advogados propostas de “prisão domiciliar”, reafirmando sempre que era vítima de uma grande mentira, esse movimento social, junto com Lula e seus advogados, saiu-se vitorioso ao final. O golpe final na lava jato foi dado no dia 22/04/21, Dia do Descobrimento do Brasil e um dia depois do Dia de Tiradentes, quando a Suprema Corte da Justiça brasileira se redimiu da sua omissão diante de tantas ilegalidades e confirmou a suspeição de Sergio Moro, já decidida semanas antes por maioria dos ministros de sua 2ª turma. Antes disso, o relator das ações da Lava Jato no STF, ministro Fachim, já havia decretado a anulação das ações de Sergio Moro ao acatar um Habeas Corpus da defesa de Lula que defendia que Curitiba não era a jurisdição certa para julgar as denuncias contra Lula como determina o Código do Direito Penal e com isso Lula já tinha conquistado a vitória da devolução dos seus direitos políticos aviltados pelas esdrúxulas sentenças de Moro. O apelidado de Torquemada brasileiro, aquele que nunca se portou como um juiz e sim como um justiceiro fora da Lei foi declarado suspeito, interessado na condenação de Lula, com intenções vis de se beneficiar dela, como já havia se tornado claro quando vazou de forma ilegal conversas da presidente Dilma com Lula, quando levantou sigilo de uma ridícula delação de Antonio Palocci uma semana antes das eleições de 2018 ajudando a dar conteúdo à reportagens e fakenews que reforçavam a cantilena de que “Lula era corrupto e o PT criou o maior sistema de corrupção da história brasileira” e depois, quando aceitou ser ministro de Bolsonaro.

Algo interessante de se registrar, muito importante para dar força ao Lula Livre e que ajudou no desmascaramento de Moro foi o vazamento dos diálogos do juiz-político com Dallagnol e os demais procuradores da Vaza Jato, captados pelo “hacker” Walter Delgati até de forma despretensiosa segundo ele, que comprovaram as ilegalidades e o conluio criminoso das autoridades federais onde Moro orientava o órgão de acusação na construção de provas contra Lula e desprezo de outras que o inocentariam, além de conspirarem contra ministros do STF e até relações ilegais com autoridades estrangeiras. A operação “Spoffing” da Polícia Federal prendeu o hacker e as mensagens que foram entregues posteriormente e com muito custo à defesa de Lula, mas que foram tornadas públicas pelo site The Intercept e reverberadas pela grande imprensa e mídias alternativas da esquerda.

Como profetizou o Papa Francisco em carta à Lula quando ele estava em Curitiba, “a verdade vencerá” e venceu! Lula está definitivamente livre e é inocente! Essa é a boa nova para o povo trabalhador, os pobres, os esperançosos de dias melhores, os inconformados com as injustiças sociais neste Brasil injusto.

Participei, junto com muitos companheiras e companheiros de tantas batalhas pela democracia e por justiça social, de dezenas de atos, manifestações, festivais e vigílias e estive 3 vezes participando a Vigília Lula Livre em Curitiba, esta uma das coisas mais fantásticas da história da luta do povo brasileiro: durante 580 dias, tempo em que Lula esteve preso, o povo não arredou o pé de frente e do entorno da sede da Polícia Federal. Eram dezenas e até centenas de pessoas, de todos os cantos do Brasil, militantes e até pessoas simples que ficaram ali acampadas em barracos e alojamentos, para dar bom dia, boa tarde e boa noite ao presidente que conseguia ouvir, da sua cela, a manifestação carinhosa e de fidelidade à sua pessoa e isso lhe dava forças para não esmorecer, sentindo que o povo nunca o abandonaria, reforçando uma cumplicidade carinhosa entre o povo e seu líder. Cada visita que Lula recebia se transformava depois em um ato político, quando o visitante – e foram muitos, líderes políticos nacionais e internacionais, como o presidente Alberto Fernandes da Argentina e líderes religiosos como Leonardo Boff e a monja Cohen, até artistas como Chico Buarque e Gilberto Gil – passava no Acampamento para informar como encontrou Lula, seu estado de ânimo e suas palavras e isso animava a turma. Nas ocasiões em que estive lá, fui voluntário na cozinha comunitária que recebia doações de todos os assentamentos rurais do MST e de tantos outros anônimos e que fornecia a alimentação aos participantes. As barracas do Acampamento também se transformaram em uma universidade aberta, pois todos os dias se realizavam ali debates, aulas públicas e seminários dos mais variados temas, com a participação dos visitantes. A solidariedade de classe é algo que a burguesia e mesmo setores de classes médias nunca irão entender, pois é própria dos pobres, dos explorados e dos trabalhadores e suas lideranças! Os acampados sofreram muito com as manifestações preconceituosas de moradores locais, até tiros receberam de milicianos encapuzados, fora as ações judiciais contra o PT e os sindicatos, tentando-se inibir e mesmo proibir o acampamento. Papel fundamental tiveram os parlamentares e dirigentes do PT de Curitiba para contornar essas situações.

Mas não foi só em Curitiba. Em vários cantos do país se realizaram comícios, saraus e festivais artísticos. A classe artística foi fundamental para animar e iluminar o movimento com os Festivais Lula Livre que reuniram multidões em Recife, Rio de Janeiro e São Paulo, lembrando outros grandes momentos da luta pela democracia. As faixas e bandeiras do Lula Livre eram expostas até no meio das torcidas em jogos de futebol, aqui e em várias partes do mundo.

A força moral de Lula era e é tanta que mesmo com a absurda cassação de sua candidatura, defendida e recomendada até pelo principal órgão de defesa dos Direitos Humanos da ONU, mas ignorada pela Justiça brasileira, que o indicado para concorrer em seu lugar, Fernando Haddad só não ganhou a eleição presidencial por que nossos adversários recorreram a ilegalidades tais como o vazamento uma semana antes do pleito do farsesco depoimento de Palocci reverberado na grande mídia, a máquina industrial de envio de fakenews, principalmente para celulares da região Sudeste que abriga o maior contingente de eleitores, paga ilegalmente por uma rede grotesca de empresários picaretas, além de manobras dos grandes meios de comunicação ao não promoverem debates entre Bolsonaro e Haddad. O que deixa evidente que Moro não agiu sozinho e sim amparado e incentivado por uma vil articulação das classes dominantes brasileiras.

É evidente que a anulação das condenações de Lula e a restituição de seus direitos políticos não pagam e nem apagam a injustiça e o prejuízo pessoal contra ele e, pior ainda, não farão voltar atrás a eleição de um genocida ligado às milícias e segmentos deploráveis da sociedade brasileira que só tragédias tem causado ao povo e ao nosso País, como a volta da fome, a retirada de direitos sociais, a destruição do patrimônio ambiental, o criminoso número de mortos pelo covid-19, a queda da renda dos brasileiros e o enorme desemprego. Mas, elas, ao devolverem a cidadania política ao melhor presidente que este país já teve, mostram que há uma luz no fim do túnel, ou seja, trazem a esperança de que é possível por um fim neste trágico e criminoso governo e recolocar o Brasil de novo nos trilhos da Democracia e do desenvolvimento com inclusão e sustentabilidade, com a eleição de Lula que se confirma como “o grande líder deste Brasil infelicitado por Bolsonaro”, como afirmou o jornalista Mino Carta e seu editorial desta semana.

Temos que dar os parabéns e um obrigado a Lula, por tudo que ele significa, fez e faz por este povo e pelo nosso País! Lula está livre e elegível, mas como ele mesmo sempre diz, a luta continua. E como dizem os líderes dos movimentos populares, quem não luta, não vive. E a luta do povo é longa e seu caminho é pedregulhoso!

*Simão Pedro Chiovetti,  é mestre em sociologia política e foi deputado estadual (2003-2015) e secretário municipal de serviços no governo de Fernando Haddad